e il naufragar m’è dolce
Carlos Barros

jogo. tenaz, quase casmurra obsessão do comum, do colectivo pensar. jogo. na consequência da sublimação, do caminho em direcção ao silêncio além do discurso, o objecto deve desaparecer, a(s) memória(s), obsessão de arqueólogos. jogo. o acaso e a intenção mais do que o acaso e a necessidade. jogo. a beleza da tentativa. a energia, o potencial transgressor da festa, a dessacralização do artista, do autor como um ser privilegiado, estranho ou foráneo às demais formas de existir e ser, eram quatro ou cinco quilos de milho, num havia guito p’ra mais. jogo. e o prazer de convidar a casa nossa, dar abrigo à loucura, ao vício, ao… jogo. casualidades, descobertas, diálogos, laboratório de paixões, obsessões inquinadas em aço, gelo, madeira, sopro, tinta, raiva, vinho e gargalhadas. jogo. pedra sobre pedra e todos a aprender, a começar por nós. jogo. um quisto na pele lúbrica da cidade, a infecção na rua das próteses e dos espelhos. e era grande a família. as filiações e os tributos devidos vieram depois, durante, com a mais ou menos esclarecida reflexão crítica. e que sim e mais que também, e a malta que nem conhecia esses personagens que tinham delirado antes pelos mesmos caminhos. jogo. e a névoa sobre o rio, e a humidade mesquinha nos ossos, e as perguntas pelas paredes. e o pó sobre tudo… jogo. relaxa, descansa, e agora vibra, grita rompe rasga, acredita. e as belas frases e a bela poesia do encontro. jogo, e um sentido quase inexplicável de ser, ser e pertencer, a raiz possível na vontade de levantar âncora. jogo. e a distância, os caminhos, os olhares, a força dos desacertos, naufrágios.
(sem passar pelo corrector, que as línguas são mesmo assim, promíscuas, infiéis.)
contra os mitómanos construtores de memórias, fotos, artigos, catálogos, o prazer puro da festa, o aqui e agora e a consequente ressaca. o fogo leva em si a sua própria extinção. jogo. sempre fomos bons no digerir das ressacas. e um fado travesti, e a encenação do voo, e as conversas cúmplices, e as noites de porta aberta… jogo. infracção. voltar à casa de partida… jogo
(e às vezes quando estávamos no melhor de nós mesmos éramos quase crianças, inquietos, irredutíveis, sonhadores, impossíveis, talvez até ignorantes de ecos, actos, correspondências.)
e nos desarraigados dias que sofremos, a cumplicidade, a construção de uma comunidade, e mais importante ainda a abertura de espaços a um colectivo bastante mais amplo do que essa mesma comunidade. não a ilha mas a construção do arquipélago. contra quem defendia a rentabilização a todo o custo da caldeira, lembro-me de ouvir em mais do que uma assembleia as palavras:”…abismo negro, esse espaço quanto a ganhos ou rendimentos não existe, se quiseres considera-o a nossa parte de serviço social.” na melhor tradição da abertura à sociedade, ao outro, a outras vozes. jogo. éramos uma tripulação inconstante e heterodoxa nesse ferrugento, esburacado, memorioso barco encalhado no pétreo coração da cidade, nebuloso e ao mesmo tempo, estranhamente acolhedor, familiar. jogo…

…e uma firme fé na beleza dos naufrágios…

Saturday, January 2nd, 2010


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